sexta-feira, 11 de junho de 2021

O que eu gostaria em uma terceira via?


Conciliadora? Moderada? Histérica? Não, nada disso. Não acredito que uma terceira via consiga trazer para uma mesma plataforma os expoentes dispersos do chamado centro do espectro político. A discussão parece estar mais preocupada com o ego de cada um dos postulantes do que propriamente em oferecer algo diferente aos eleitores brasileiros. Não sou nenhum sebastianista aguardando que nosso salvador retorne miraculosamente de Alcácer-Quibir e resolva todos os nossos problemas. Nesse sentido, uma aliança entre os diversos partidos em torno de um nome que consiga participar do debate dicotômico entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula não será suficiente. Justamente esse tipo de mentalidade me parece ter conduzido ao estado de dicotomia, para começo de conversa.

O primeiro aspecto a ser reconhecido é o caráter dicotômico estabelecido. Temos um grupo expressivo na base de apoio do presidente Bolsonaro e outro grupo expressivo na base de apoio do ex-presidente Lula. Esses dois grupos possuem comportamentos muito semelhantes, mas doutrinas de pensamento completamente diferentes. A maneira como os discursos são utilizados pelos grupos para sustentar seus respectivos apoiamentos podem sugerir que as figuras apoiadas sejam iguais. Entendo que seja um erro grosseiro tentar equiparar o presidente Bolsonaro com o ex-presidente Lula. Vejo algumas pessoas utilizando o neologismo “bolsopetismo”, em uma tentativa de narrativa para dizer que os dois representam a mesma coisa. Que os grupos de apoiadores sejam semelhantes em suas devoções quase messiânicas eu consigo entender. Cada um dos grupos enxerga no outro praticamente a maldade encarnada. Então, eu compreendo quando as pessoas se apegam em algum tipo de líder para livrá-las do mau. Mas o comportamento devoto dos fiéis não significa dizer que os objetos de devoção são idênticos. Se uma terceira via quiser ser competitiva, precisa se livrar dos diagnósticos rasteiros e tratar cada um dos favoritos com a distintividade que merecem ou simplesmente será ridicularizada.

Todos os governos do Brasil tiveram acertos e equívocos. E os critérios para essa categorização podem ser objetivos (isto é, analisando os efeitos práticos dos atos) ou subjetivos (baseados na crença individual e/ou doutrinária que cada um entende como bom ou mal governo). Não pretendo aqui assinalar os erros e acertos dos governos Lula e Bolsonaro. Mas uma terceira via que pretenda ser levada a sério pelo eleitorado precisa apontar os equívocos cometidos. Além disso, precisa apontar de uma maneira séria, adulta, não se utilizar de jargões cafonas e frases de efeito no maior estilo Diretório Acadêmico de Universidade, ou hashtags vazias nas redes sociais. Apontar o que foi feito de errado sob o seu ponto de vista e, ainda mais importante, propor uma maneira alternativa de atuação. Se não há nenhuma proposição de como fazer diferente, não faz sentido nenhum uma terceira via. Críticas e ataques desvairados, os grupos opositores que aí estão já fazem; bastaria ao eleitor escolher qual dos dois é menos ruim e pronto. Uma terceira via precisa dizer onde estão os erros das administrações anteriores e oferecer ao eleitorado uma proposta diferente. Aqui eu poderia sugerir equívocos de um e de outro, mas não é esse meu propósito. Talvez em um outro momento.

Afinal, o que eu gostaria em uma terceira via? Eu gostaria do reconhecimento que as eventuais candidaturas do presidente Bolsonaro e do ex-presidente Lula não poderiam ser mais diferentes; gostaria que os equívocos de ambos fossem explicitados de uma maneira clara e cristalina; gostaria que as críticas fossem construtivas, que apontassem para uma maneira diferente de atuação do Executivo brasileiro; e, por fim, gostaria que uma terceira via conseguisse conversar com uma parcela do eleitorado que não esteja satisfeita com o governo atual e, tampouco, gostaria de ver um retorno ao passado. Eu acredito que isso irá acontecer? Não, eu não acredito. Contudo, minha atenção não está na eleição presidencial. O problema da condução política não está no poder Executivo. Por isso, meu foco está na eleição para o Congresso Nacional. Para a Câmara Federal e, principalmente, para o Senado Federal. É lá que pretendo direcionar minha preocupação independente de quem seja o próximo presidente. Afinal de contas, quem quer que assuma o Palácio do Planalto em 2023 só conseguirá fazer qualquer coisa na direção do que considero um bom governo se o Congresso Nacional for severamente modificado.


O que eu gostaria em uma terceira via?

Conciliadora? Moderada? Histérica? Não, nada disso. Não acredito que uma terceira via consiga trazer para uma mesma plataforma os expoentes ...